sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Salta-pocinhas


Salta-pocinhas, o tempo,
Não tem regras nem horários,
Abre as portas, imprudente,
Aos fantasmas dos armários.
Brinca e pula, traquina,
Matreiro, espreita à esquina,
Ginete, rasteira e domina!
Traz nos bolsos o passado,
Que vai largando em migalhas,
E no meio doutras tralhas,
Brilha a tábua do sobrado
Onde escondeu seus tesouros,
Misturando nos seus ouros,
Os seus perdidos amores,
Com os trágicos temores
De tudo ter regressado
Ou não estar ultrapassado!
Soubesse eu onde ele esconde
A chave para o trancar,
Jamais ele ousaria
Volta e meia me assombrar!

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Coca-cola com limão





Coca-cola com limão
À mesa do Melody;
Tu aí…
Eu aqui!

Ris-me com os teus olhos
Enquanto choras por dentro,
Fizeste de mim o teu mundo
Transformaste-te no meu centro.
Pedes que fique,… não posso,
Ao partir vou cá ficar;
Pedir-te que venhas, não posso,
Nada tenho p’ra te dar.
Vou deixar meu coração
Para sempre preso a ti,
Coca-cola com limão
À mesa do Melody!

Faltaste à despedida,
Onde estás? Porque não vens?
Estás ferida ou perdida?
Que te dói? O que é que tens?
Rios de lágrimas que ficam,
Rios de lágrimas que vão,
Não há rios nesta terra,
Levadas é o que eles são.
Buscas-me em todo o lado,
Procuro em todo o lugar,
Já tenho destino traçado;
Perco-me se te encontrar!
Coca-cola com limão
À mesa do Melody;
Tu aí…
Eu aqui!

Passam-se meses e anos,
O tempo sempre a andar.
Outros amores, outros amos
Do coração a sangrar.
O tempo que vai cosendo,
Como médico- tecelão,
Com fios de esquecimento
Pedaços do coração.
Onde estás? Onde andas?
Responde-me a voz do nada,
Só as marés vão beijando
Nossa praia sossegada…

Tu aí…
Eu aqui!
Coca-cola com limão
À mesa do Melody.

Christian de La Salette

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Silêncio Calado



Deixei de ouvir as palavras escritas no computador. Deixei de as escrever e elas ficaram sem som.
Já não se ouve a dor, o sofrimento, a angústia das palavras que magoam, o riso daquelas que alegram, a tristeza daquelas que choram. Não preciso mais de esconder o coração nas palavras ou descobri-lo em confissões indesejadas. Está livre para não sentir. Não se ouvem os sons que magoam; sons de ciúme, sons da distância, sons que se ouviam com a tua falta (alguns deles eram lágrimas a correrem para dentro dos olhos), sons da consciência a impor-se ao pecado. Resta o ecrã em branco, silencioso. Nem sequer se ouvem os murmúrios dos soluços, ou o riso escarninho da razão. Ela ganhou-nos. Foi mais forte que a insegurança da nossa relação moribunda à nascença, como feto abortado sem licença, aborto espontâneo por falta de útero onde germinasse e crescesse, feto sem som e como tal sem vontade. Já não se ouvem os gritos mudos da minha paixão alucinada e cega; gritos-frases que te escrevia à sexta-feira, gritos-poemas que te continuo a escrever. Não se ouvem os dias a passar longe de ti. É um silêncio que oprime, que vai apertando a solidão como uma amarra, não a deixando soltar-se, partir para outros lados, navegar noutras almas que se amam sem serem correspondidas. Como nós… Dizes-me que é mentira, que o que eu sinto se corresponde em ti, e eu te digo que apenas se corresponde nas palavras e por isso elas se calam, cansadas de serem usadas por nós dois. Cansadas de serem só palavras que dizem sentimentos sem os sentirem; palavras de amor não amadas. Palavras-letras marionetas, que dançavam com a nossa vontade, ora se deitando por volúpia, ora se levantando com vergonha de se terem despido. Palavras-beijo que viviam na memória e se perderam no correr dos dias, por falta de alimento, por se esquecerem como eram quando estavam abraçadas aos nossos lábios. Palavras-sonho que viveram na nossa imaginação, que se cansaram de ser sonho e se transformaram em palavras-utopia. Calaram-se todas as palavras, deixando em seu lugar um silêncio-estátua, imóvel, um silêncio calado.
Christian de La Sallette

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Injustiças

No pé de uma figueira frondosa
Sentam-se à sombra os amigos,
Uns chamam-na formosa
Os outros papam-lhe os figos.

Na margem de uma ribeira
Que uns chamam maravilha,
Outros arranjam maneira
De beber mesmo sem bilha.

E assim vão andando,
E assim vão vivendo,
Uns as belezas cantando;
Outros as belezas comendo!

Passa-se o mesmo comigo,
Neste mundo imperfeito,
Enquanto me chamas amigo
Outro te afaga o peito.

Vou-te gabando os encantos
E olhas-me embevecida,
Choras em mim os teus pratos
És para o outro comida.

E assim vou andando,
E assim vou vivendo,
Eu tuas belezas cantando;
Outro tuas belezas comendo!

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Espera


Continuo à tua espera
E que o teu sorriso espreite,
Antes que o Sol se apague
 Antes que o amor se deite...
Talvez que ele matreiro
Brinque às escondidas
E se esconda nas esquinas
Das ruas das nossas vidas...
Ou talvez ele se encontre
Escondido num jardim
Onde em tempos o deixámos
Na seta do querubim
A quem chamam de cupido,
Que só a mim trespassou,
Pois de ti nem mesmo um beijo
Nos meus lábios me deixou...
Continuo à tua espera
E que o teu olhar me veja,
Quando as noites são compridas
Quando a luz do sol troveja...
E a luz da tua casa
Que se acende para o outro
O meu coração arrasa
Me enche de vil inveja...
Continuo à tua espera,
De sentir a tua pele
Do teu beijo de Quimera
Do teu amor de papel...
Das tuas mãos de princesa
Acariciando os cabelos,
Da tua falsa pureza
Que não vem aos meus apelos.
Continuo à tua espera
E do teu amor ausente,
Da tua voz sedutora
Do teu corpo de serpente,
Dos teus olhos de medusa
Que enfeitiçam sem dó,
Do teu tronco sem blusa
Esperando-me no pó...

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Momentos


Há momentos em que esqueço
Que as lágrimas beijam os lábios,
Esqueço os conselhos sábios
Recebo o que não mereço.
Há momentos em que o tempo
Esconde a borracha e não apaga
Toda a dor e sofrimento
Que dentro do peito esmaga.
Há momentos em que quero
Voltar atrás uns momentos,
Olvidar os pensamentos
Que formam o desespero,
Nascido algures na mente…
Há momentos em que quero
Desistir-me de ser gente.
Peço o divórcio à vida,
Cansam-me os jogos que faz,
Cansa-me a sua corrida
A sua falta de paz.
Há momentos em que tudo
É um nada que interessa,
Vivendo a vida à pressa
Todos os dias entrudo,
Mascarados em sorrisos,
Dentes máquina constantes…
Há momentos que são instantes,
Outros ficam triunfantes
A marcar todos momentos.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Amigos

"Um dia a maioria de nós irá separar-se.
Sentiremos saudades de todas as conversas atiradas fora,
das descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos,
dos tantos risos e momentos que partilhámos.

Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia, das
vésperas dos fins-de-semana, dos finais de ano, enfim...
do companheirismo vivido.
Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre.

Hoje já não tenho tanta certeza disso.
Em breve cada um vai para seu lado, seja
pelo destino ou por algum
desentendimento, segue a sua vida.
Talvez continuemos a encontrar-nos, quem sabe... nas cartas
que trocaremos.
Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices...
Aí, os dias vão passar, meses... anos... até este contacto
se tornar cada vez mais raro.
Vamo-nos perder no tempo...
Um dia os nossos filhos verão as nossas fotografias e
perguntarão:
Quem são aquelas pessoas?
Diremos... que eram nossos amigos e... isso vai doer tanto!
- Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons
anos da minha vida!
A saudade vai apertar bem dentro do peito.
Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente...
Quando o nosso grupo estiver incompleto...
reunir-nos-emos para um último adeus a um amigo.
E, entre lágrimas, abraçar-nos-emos.
Então, faremos promessas de nos encontrarmos mais vezes
daquele dia em diante.
Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a
sua vida isolada do passado.
E perder-nos-emos no tempo...
Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não
deixes que a vida
passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de
grandes tempestades...
Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem
morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem
todos os meus amigos!"
Fernando pessoa

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Abraços


Guarda-me um abraço
Para os momentos
Que os maus pensamentos
Vão ensombrar.
Guarda-me um espaço
Nesse cantinho
Aconchegadinho
Que é teu regaço.
Guarda-me passos
Nos teus caminhos
Quando os teus passos
Forem sozinhos.

Joga comigo
À apanhada,
Não temas nada.
Não temas nada…

Guarda-me um ombro
Se estiver triste
Moral em riste
Para me apoiar.
Guarda-me estrelas
No firmamento,
São bom unguento
Para curar
As minhas mágoas
Quando não pertenço
Ao teu olhar.

Joga comigo
À apanhada,
Não temas nada.
Não temas nada…

Guarda-me o colo
Se for quentinho
Que quero um ninho
P’ra me enroscar.
Guarda-me os dias
Do teu sorriso
É o que preciso
Para aguentar
A longa ausência
De um beijo quente
Que não queres dar.

Joga comigo
À apanhada,
Não temas nada.
Não temas nada…

Guarda-me na memória
Como lembrança
De sensual dança
Na tua história.
Guarda-me um beijo
Do teu desejo
Que eu nada tenho
Se não me amares.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Verso Anual


Esta vida vai correndo
Cheia de pressa de ir,
Olhando mas nunca vendo
O tempo gozando a rir.

Sem te dares conta é passado…
O teu desejo presente,
Foi ‘inda ontem pensado,
Já longe se perde ausente.
Esta vida que correndo
Nos esconde da memória
Irmos aos poucos morrendo
Sem deixar marca na história,
Apenas entre nós vivendo
Aventuras sem glória.

Passam-se os anos assim…

Dão-te lembranças/embrulhos
Em cada ano que passa,
Nenhum deles tem barulhos
Do que mais a ti te interessa,
Quando ávida os sacodes
Na expectativa/esperança
De dentro de si encerrarem
Passos mágicos de dança,
Que te transportem no tempo,
Desde quando eras criança,
Que te devolvam o tempo
Isento da fera lança
Que se crava sem pudor
E faz nos teus sonhos matança

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

NINIFLORA II

A tua casa não tem jardim e por isso não te posso dar flores. Nem tens espaço para baloiços onde brinquem as nossas crianças aos risos e gritos de alegria, cabelos despenteados e fraldas em desalinho. Faces rosadas das correrias não serão vistas fora das areias da tua praia, aquela que estou interdito de visitar.
Não posso deixar presentes à tua porta que logo pensarás que outro tos deu em vez de te lembrares da vergonha deste amor meu, um amor que se esconde nas esquinas dos teus caminhos, como um mirone da tua vida, vendo-te passar sem fazer parte dos teus passos.
Lembro-me todos os aniversários que não posso partilhar contigo, os meus, os dos nossos, o teu… Este aniversário que se esgota em mais um ano. Repara como é irónico festejarmos uma coisa que acaba como se fosse muito importante… só se festeja o aniversário quando ele termina e entramos num outro.
Penso em mil coisas para te dar nos teus múltiplos aniversários, porque eles multiplicam-se nos aniversários dos teus filhos. Nada me parece ser correcto, nada te posso dar que tu realmente queiras. Sinto a frustração de te dar um nada contínuo todos os aniversários. É um nada tão vazio que me entristece; um nada que apenas preenche a solidão da tua ausência ao pé de mim, essa ausência que é presença permanente na minha vida. E apenas te faço lembrar a ausência do outro. Entristece-me não saber mudar o mundo para que ele se molde aos teus sonhos, para que a tua realidade seja a que desejas e não as sobras das realidades dos outros, os restos da realidade de quem desejas quando se digna conceder-tos, em afagos que subtrai à realidade que não larga por ti.
Entristece-me não saber moldar o teu coração para que ele só ame quem te merece e que saiba dar-se todo a ti, sempre que queiras, quando o quiseres. Fico triste por não saber escapar para dentro dos teus sonhos, de os tornar estrelas brilhantes nos teus olhos ao acordares, de os fazer reais como as tuas lágrimas que deixaste de chorar no meu ombro…
Com quem choras tu agora?
Parabéns amor por todos os teus aniversários!

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Aniversário III


Perdem-se os meus braços no vazio
De cada vez que se abrem para ti,
Sinto-me rejeitado, cão vadio
Engulo a humilhação que recebi.
Não vês quanto de amor te querem dar
Os meus abraços cheios de ternura?
Não vês que nessa forma de amar
Se esvai um pouco da loucura
Que enche cada passo deste andar,
Vivendo em permanência a tortura
Que é não ter o colo que te cria,
Da forma ensandecida como queria,
O colo que se abre em amizade
Fechando-se, inflexível, à vontade
Que me enlouquece e me fecha nesta ilha?
Não vês que te quero como filha?...

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Dentro e Fora


Fora de mim eu sou livre
Não tenho quem me agarre,
Sou como barco sem âncora
Ou cais que me amarre.
Dentro de mim tu és peso
Que me leva até ao fundo,
Me prende nas tuas redes
Me amarra ao teu mundo.
Fora de mim sou gaivota
Sem medo de sobrevoar
Perdido longe da costa
Ter por companheiro o mar.
Dentro de mim és grilheta
Sala feita de tortura,
Último grão de ampulheta
Da sentença da amargura.
Fora de mim eu existo,
Sou um eu que se liberta
Daquele de quem desisto
Se o teu amor me aperta.
Dentro de mim tu existes,
És presença permanente,
Sentimento que penetra
Todo o buraco da mente.

Christian de La Salette

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Aramis


Finalmente adormeceste!
Findou o teu sofrimento.
Foi tão pouco o que viveste;
Não passou de um momento.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Pain is back!

Olá!...

Diz-me como tens passado,

Está tudo bem do teu lado?

Ou tens andado cansada,

Farta de tudo e de nada?

Tens tido boas lembranças

Das nossas quietas danças?

Tens ouvido as melodias

Das nossas melancolias?


Por onde andas, amor?

Porque não levas a dor,

Que tudo vai consumindo,

Que com desprezo vai rindo,

Deste amar desesperado,

Deste querer em todo o lado,

Somente a ti te encontrar,

Deste insano acordar,

Nas manhãs de agonia

Repetidas cada dia,

Como funesta data

Em que não te ter me mata?


Porque não levas a dor

Que se cola no meu peito,

Porque não vens ao meu leito?

Porque não enches o oco

Esse buraco de louco,

Que me preenche as entranhas?

Porque não trazes contigo

Uma mezinha de amigo

Para tirar esta chaga,

Ferida que me afaga

No lugar do teu carinho?

Christian de La Salette

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Vizinhos


Se morasses no meu bairro
Numa casinha singela
Com canteiros de flores
Pintada de aguarela,
Virias todos os dias
Espreitar-me à janela?
Virias ver-me passar
Como quem vê um cortejo
Do teu príncipe encantado,
Atirando-me com um beijo?
Se morasses no meu bairro
Ou até na mesma rua
Víamos as mesmas estrelas,
Namorávamos à luz da lua?
Teríamos todos os dias,
Todas as horas dos mesmos
Para estarmos bem juntinhos
A comer pão e torresmos,
Ou mastigarmos pipocas
Como quem está no cinema,
A ver um filme romântico
Não importa qual o tema.
Andávamos na brincadeira,
Começando de manhã,
Fingias-te enfermeira,
Eu papá e tu mamã.
Só parávamos à noitinha
Cansados de tanto brincar
Olhos brilhantes e rindo,
Um e outro, um só par…

Christian de la Salette

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Enfeitiçado

Ando confuso, sem rumo certo

Perdi-me da minha estrada,

Fico perdido, se não estás perto

Não sei da minha morada.

Não sei como é que tu consegues

Deixar-me tão enfeitiçado,

Que quando tu não estás perto

Sinto-me tão abandonado!

Saio de casa, vou para as aulas

Contigo no pensamento,

Fico tão triste se não me falas

Não ouves o meu lamento…

Como é que posso soltar-te

Se estás agarrada a mim,

Eu não consigo largar-te

Vais comigo até ao fim…

Não sei viver sem teu regaço,

Não posso viver sem ti,

Fica vazio o meu espaço

Se não te tiver aqui…

Não sei como é que tu consegues

Deixar-me tão enfeitiçado,

Que quando tu não estás perto

Sinto-me tão abandonado!

Não posso viver sem o sorriso

Pintado na tua face

Faço tudo o que for preciso

P’ra manter esse teu disfarce.

Ando à deriva, sem ter destino

Buscando sem te encontrar,

A minha vida é um desatino

Não sei onde vou parar.

És tão presente a toda a hora

Até mesmo no meu leito,

És a paixão que me devora

Rebentas-me dentro do peito.

Usas magia, prendes com laços,

Não sei como isso é feito,

Que quando me entrego a outros braços

É contigo que me deito.

Não sei como é que tu consegues

Deixar-me tão enfeitiçado,

Que quando tu não estás perto

Sinto-me tão abandonado!


Christian de La Salette

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Para quê, Nini?

Para quê chorar se as minhas lágrimas não correm nos teus rios?; para quê gritar se os meus ecos se perdem nos teus vazios?; para quê sofrer se não podes curar meus desvarios?; para quê sonhar se os meus sonhos são levados pelos desvios?...
Para quê esperar-te noite e dia sem sentido?; para quê desejar-te se não respondes ao meu pedido?; para quê procurar-te se me sentir sempre perdido?; para quê amar-te se não for correspondido?...
Para quê chorar?
Perdem-se muitas lágrimas no precipício dos dias, caem desamparadas no rosto da tua ausência, esgota-me a paciência de te esperar e não vires. Choram as músicas que partilhámos porque agora não as ouves e perdem-se solitárias nos meus ouvidos, na recordação das emoções que vivíamos juntos quando fechávamos os olhos e deixávamos que a sua melodia nos levasse nos seus braços, em direcção ao único sítio onde existíamos os dois enquanto o tempo corria esquecido de nós, e assim ficávamos, amantes ao luar do meio dia, abraçados em sentimentos fugazmente partilhados. Não te lembras?
Para quê gritar?
Só tu é que não ouves os meus gritos quando é por ti que grito, só tu é que desapareces no silêncio que me mostras de vez em quando, e eu perco-me na cidade gritando em todo o lado por ti, em todos os lados onde sentia a tua presença. Não me respondes porque é só isso que me sabes responder… a mudez do nada.
Para quê sofrer?
Às vezes os meus caminhos passam na tua porta, as minhas estradas levam-me ao teu lar; não ouso bater ou entrar. Fico na escuridão da noite deste Outono/Inverno olhando a tua silhueta movimentando-se de um lado para outro à contraluz. Breve me afasto para que não me vejas ou sintas, para que não me vejam e acusem, querendo que me visses e sentisses, querendo que me vissem e te acusassem a minha presença. E sinto ciúmes desse espaço onde não habito, desse lar onde não pertenço, de todos os móveis e adereços que recebem o teu toque e cuidados. Às vezes gostava de ser uma peça de mobília em tua casa: um sofá para te sentares; um bibelot para limpares suavemente o pó como quem faz uma carícia; um espelho onde te mirares envolta em toalha de banho ou mesmo sem ela; uma cama para te deitares; uma almofada para chorares…
Para quê sonhar?
Os sonhos podem ser cruéis quando não sobrevivem à noite, ao sono, podem criar ilusões que se desfazem à luz do dia, como grãos de areia esvaindo-se por entre os dedos até que apenas restem uns quantos que se tornam desagradáveis e queremos tirar a todo custo das nossas mãos porque nos incomodam; os sonhos podem ser belos quando se realizam no coração de quem se ama apesar do sono se ter ido embora, se ficarem e não se partirem em pedaços quando a manhã nos acorda, se crescerem e não se perderem cada vez que abrem os olhos…
Para quê esperar?
De cada vez que desapareces deixas-te ficar fechada na minha vontade de não te deixar ir, apesar de ires quando mais preciso de ti, quando mais insuportável se torna a vontade de te ter ao pé de mim. Abandonas-me de cada vez que te espero sem to dizer, de cada vez que procuro ver-te e não consigo, de cada vez que os meus olhos te dizem o que a minha boca cala. Foges-me cada vez que te recordo, cada vez que em ti penso e tu não estás aqui…
Para quê desejar?
Quanto mais cresce o meu desejo mais insuportável se torna, mais me enlouquece a vontade de te abraçar, de sentir o teu corpo no meu, de te tocar, de te cheirar, de te beijar, de te acariciar com sofreguidão, de te apertar. Nascem-me ciúmes de todos a quem te dás, daquele a quem te dás; enraivece-me a impotência de ocupar o lugar dele, de não ser eu quem te toca a tua pele e sente o calor que ela emana, de não ser por mim que se eriçam os teus pelos, de não ser a mim que tu te entregas…
Para quê procurar?
Hei-de-me perder sempre na tua busca, nos ermos em que se transforma a minha existência quando a tua luz não me guia. É um buscar sem fim porque nunca me deixas encontrar-te, porque não queres que eu te encontre, porque não é a mim que queres encontrar…
Para quê amar?
Porque nem é amar este somatório de queixumes, de desencontros, de prostração de joelhos em que me humilho, neste contínuo chorar por um amor teu, uma migalha do amor que dás ao outro, quando eu é que não soube guardar-te, me encolhi na comodidade da minha vida enganada, te prometi o que não podia dar-te, te acusei de me fazeres sofrer, e corria sem pensar ao teu encontro sabendo-te triste tentando alegrar-te com a minha tristeza. Às vezes sou tão patético!…
Só às vezes?!!!
C. L.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Depois do nunca


Ainda dorme o nosso leito quente. Ficamos de olhos abertos sem ver a noite acabada, o dia a despontar timidamente na dobra dos lençóis, como se tivesse sido apanhado no meio de uma travessura. Os nossos abraços estão cansados depois desta noite sem sono, deitam-se languidamente ao lado dos nossos corpos despidos, nus até dos preconceitos que nos vestem fora da nossa cama. A nossa vontade permanece adormecida também. Queremos ficar assim até nos esquecermos de tudo, de todos… das responsabilidades e irresponsabilidades, perder a noção do pecado, perder a noção de tudo que não seja esse momento, esse pedaço de tempo que fica estático na contemplação dos nossos corpos suados. Aos poucos entrelaçam-se os dedos. Desperta devagar novo desejo que vai subindo até às nossas bocas, um frémito eléctrico nos percorre totalmente. Embrulham-se outra vez os lençóis, misturando-se o de cima no de baixo, esqueceram o cansaço… A noite repete-se na manhã, a manhã encadeia-se na tarde e a tarde deita-se com o anoitecer. Ninguém nos pede nada; não há crianças para levar à escola, não há livros para estudar, pequenos-almoços a preparar, lanches, mochilas, piscinas, tempo esgotado… Somos só os dois… corpos deitados que se tornam um só em movimentos alternados. Corpos instinto na sofreguidão do sexo voraz que nos consome, sem pudores… perdemo-nos no reencontro dos nossos corpos, no desejo partilhado nos milhões de poros brilhantes de suor. Vagueia o mundo lá fora à nossa espera. Cansa-se de esperar por nós. Fingimos que não existe. Para mim só existe o êxtase nos teus olhos fechados, esses olhos onde se afunda toda a minha resistência e me prendem na certeza do prazer jamais imaginado, assim sentido a dois, como devia ter sido há muito tempo, como devia estar destinado. Serenamos. Aos poucos regressamos ao presente e, mesmo não querendo, despejamo-nos outra vez no mundo dos outros. Tornamo-nos iguais a eles.
Outro dia talvez…
Christian de La Salette

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Sentir de Corpo Inteiro



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Sinto os olhos marejados
Num sentir que me desgasta
Porque olhar-te não me basta,
Quero-te em todos os lados.
Sinto o cheiro do ciúme,
Odor, aroma ou essência,
A traição da ausência
Misturada em teu perfume.
Sinto o espaço que separa
O beijo da tua boca,
A lágrima que fica louca
Se o teu lábio não a apara.
Sinto uma dor na garganta
Como um colar apertado,
Nó que me deixa engasgado
Se a tua voz não me canta.
Sinto os meus braços vazios,
Quando envoltos só em mim,
A solidão sem ter fim
Numa ilha sem navios.
Sinto o meu peito gelado
Sem ter o teu para encosto,
O sabor acre a desgosto
Por não te ter a meu lado.
Sinto as mãos encarquilhadas
Pelo frio que provocas
Cada vez que não me tocas,
De ti estão separadas.
Sinto no ventre a agonia
Dos dias longe de ti,
A dor de não te ter aqui
Só para me dar alegria.
Sinto a dor da excitação
Quando me abraço contigo,
Sinto-te como um castigo
Sem me dares a absolvição.
Sinto as pernas entorpecidas,
Por não saberem andar
Sem ter as tuas por par…
Cansadas, param, vencidas.
Sinto os joelhos tremer
Como da primeira vez
Que o dia em luz se desfez.
Sinto nunca te ter…
Sinto nos pés as dores,
Que em todo o corpo transporto,
Mas dessas dores não me importo
Se te seguir onde fores.
Sinto-me sempre enganado,
Quando em ti eu não me leio,
Chego até a ter receio
De ser eu o teu amado.

Christian de La Salette

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Niniflora


Nasce uma flor em cada dia,
Diferente na fragrância, no perfume,
Aroma que tão breve me inebria,
Odor que me desperta o ciúme.
Abre-se completa a todo o vento,
Ondula sob as brisas mais ligeiras,
Insinua-se em suave movimento,
Roça-me com suas pétalas brejeiras.
Atrai-me ao seu pólen como insecto,
Afasto-me sem contudo me afastar,
Transforma-me num mero objecto,
Cada vez que a atrevo contemplar.
Desejo ser jarra bem garrida,
Poder em mim seu caule abraçar,
A luz que a abre para a vida,
A terra para seu corpo alimentar.

Nasce uma flor a cada hora,
Diferente na textura e na cor,
Criando uma tontura que devora,
Tudo o que rodopia em seu redor.
Pisam essa flor, os ignorantes,
Da dor que lhe provocam sem remorso,
Roubam-lhe os seus belos instantes,
Colhem o seu pólen sem esforço.
Roubam-me essa flor sem tal saberem,
Ignoram que ela é minha, sem o ser,
Tiram-ma sem sequer se aperceberem,
Que fico muito mais perto de morrer.

Christian de La Salette

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Alma Vaga


Solta-te minh’alma presa
Junta o voo ao teu bando
Em busca da luz acesa
Que fraca vai apagando,
Essa luz que em cada dia
Se renova em esperança
Te provoca a agonia
Da vertigem dessa dança,
Desse imparável volteio
Que renasce a toda a hora,
Desse infindável receio
De sentir que vai embora,
A chama que te alumia
Esse trilho abandonado
Onde vagueias perdida
Sem chegar a qualquer lado,
Onde caminhas sem passos
Inquieta e naufragada,
Onde mergulhas abraços
No vazio do teu nada.
Voa em raiva renascida
Nessa busca desesperada,
Da terra do nunca perdida
Entre a noite e a madrugada,
Como Fénix renovada
Por uma morte queimada,
Fazendo das chamas vida
Nas cinzas reencontrada.
Dança livre na loucura
Do vazio que te tapa
Como vontade futura
Que de ti sempre se escapa,
Como desejo incoerente
Como anseio desesperado,
Dança minh’alma indigente,
Faz de conta que és de gente
E não deste pobre coitado…

Christian de La Salette

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Aniversário II


Mais um ano por ti passa,
Mais alguns estão p’ra vir,
Que venham cheios de graça,
Com coisas de fazer rir.
Que venham engalanados,
Festivos e coloridos,
Tragam fortunas no saco,
Sorte para os que te são queridos.

Mais um ano, mais um dia,
Mais horas, minutos, segundos,
Se pudesse eu te daria,
O melhor que há nos mundos,
Saúde, pão, diamantes,
Safiras, rubis, e ouro,
Esmeraldas e brilhantes,
O mais secreto tesouro,
O desejo mais guardado,
Beijo de amor alucinante,
Um colar feito de abraços,
Amar louco de amante.

Mais que tudo te daria,
Toda a minha amizade,
Se de mim tal dependesse;
Mais que tudo eu te daria
O meu amor de verdade
Se a mim tal pertencesse.
Mas nada mais posso dar,
Já não os tenho comigo,
A outra me fui entregar;
Quem dá não torna a tirar…

Dou-te este poema de amigo.

Christian de La Salette

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Acorrentado


Sangra-me a tua ausência como um espinho cravado nos pés que caminham nos meus dias. Instala-se a solidão na mudez do teu espaço que me ocupa totalmente. Dias a fio sem te ver... Dias a fio em que me atormentas com o teu silêncio enquanto tudo em mim grita por ti, tudo em mim anseia por um olhar teu, uma palavra tua, uma suave carícia da tua pele na minha, um som dos teus lábios nos meus ouvidos, um pequeno roçagar em mim. Invadem-me as recordações desejadas, aquelas que me provocam saudade de não terem sido, um sentimento de perda de algo que nunca tive. Rejeito as madrugadas que não te encontram no meu leito, as manhãs que não me encontram contigo à mesa de um café conversando futilidades, as tardes que não nos passeiam de mãos dadas nos jardins cúmplices do nosso amor inexistente, o entardecer sem um pôr-do-sol partilhado nos olhos. Rejeito os dias de chuva sem te ter junto à lareira olhando na janela as gotas de água escorrendo e o cinzento exterior contrastado no brilho dessa lareira da nossa casa imaginada. Rejeito o som do granizo no telhado desse ninho de amor em noite de invernia, imagem dos meus dias sem ti...
Deixa-me sonhar outra vez!

quinta-feira, 1 de maio de 2008

I need your love


Há músicas que têm poemas que devem ser escutados de olhos fechados, imaginando-nos junto de quem mais queremos nesse momento. Há músicas que se ouvem de lágrimas nos olhos. Esta é uma delas!
Há momentos em que as palavras estão a mais, estragam os sentimentos, ocultam a magia das imagens que se formam no interior de nós mesmos. Esta música provoca um desses raros momentos!

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Ainda...

Julguei amansadas as correntes dos meus rios. Pensava-me livre... Não reparei nas cascatas que se precipitam em mim, esqueci-me que as barragens apenas contêm a água temporariamente; algum dia as comportas teriam de abrir e as águas calmas da albufeira hão-de precipitar-se em tropel e retomar o percurso interrompido. As minhas comportas abriram-se ... Regressam ao seu leito as cristalinas águas, cheias de transparências aparentes, prenhes de minúsculas vidas incolores, invisíveis aos teus olhos. Retomam-se os cursos inacabados...
Afinal a dor só adormece, nunca acaba, talvez até se esconda atrás das portas que vou fechando em mim, por detrás das janelas fechadas ao conhecimento. A dor transporta-se em rios, é uma das suas minúsculas vidas. E os rios das dores afinal nem são rios... São tempestades, ribombar de trovões inesperados que me assustam, relâmpagos que me atingem e queimam e ferem e assam por dentro; raios que me separam em múltiplas partes de mim mesmo, em pedaços que se despedaçam, que se juntam, fundem, se reconstroem e quebram novamente... Um contínuo reviver, um eterno perecer...

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Resquícios


Vou escrever-te um poema merecido,
Que saiba descrever-te por inteiro,
Te permita ver o mundo colorido,
Onde vivas um sonho verdadeiro.
Um poema sem lugar p’ra duras guerras,
Crianças esfaimadas ou doentes,
Longe da miséria d’outras terras,
Perto dos desejos mais urgentes.
Um poema sem promessas não cumpridas,
Sem desejos esmagados ou esquecidos,
Cheio de esperança noutras vidas,
Longe de caminhos já perdidos.
Um poema de paletas p’ra pintar,
A cor da tua alma junto ao mar,
O sopro da ternura em teus cabelos,
Um beijo de carinho ao luar.
Poema com poder de alterar,
Tudo o que na vida te rodeia,
Mudar meu corpo para se tornar
No corpo de quem teu coração anseia.
Poder mudar o tempo p’ra ficar,
Quieto quando te tenho nos meus braços,
Parado embevecido a contemplar
Teu corpo lânguido envolto nos abraços.
Poema de te ter só para mim,
De corpo inteiro e em todo o pensamento,
Poder fazer contigo um jardim,
Recantos partilhados só com o vento.
Poema a sussurrar palavras mansas,
De te fazer com o hálito um colar,
Experimentar contigo novas danças,
Aprender as outras formas do amar.
Poema a desenhar futuros novos,
Entrelaçados num futuro teu,
Comungando contigo noite e dia,
Enxertar a tua vida no que é meu.

Christian de La Salette

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Serenidade


Dormem os campos serenos e apenas os seus cabelos verdes se agitam à passagem de uma suave brisa que te acompanha os passos. Dormem sossegados já sem o teu desassossego, repousam finalmente sem se revolverem à tua presença. Preparam-se para outros cultivos, para receber sementes de outras gentes, germinarem na calmaria das tempestades que sobra dos teus dias, florescerem calmamente sem o atropelo das sucessões dos dias inquietos, sem a chuva que os alagava, sem o frio que os invadia, sem a geada que os queimava, sem o guião que os matava...
Vêm os dias amenos descansar nas horas mortas, sentados à sombra do não querer, enquanto a terra descansa sem se sentir continuamente pisada. Preparam-se os terrenos para nova Primavera.
Serenam as plantas no seu crescimento. Já não és o vento forte que as abana, que lhes derruba as folhas e as parte em partes. Sossegam os rios da tua enchente invernal, correm agora lânguidos, preguiçosos, sem pressa de chegar à tua foz. Acalmam-se as manhãs quando acordam sem ti, as nuvens abrem ... O sol regressa, finalmente!...

quinta-feira, 20 de março de 2008

Sereia


Naufragam todos os barcos
Que passam ao largo de ti,
Encantas-lhes os marinheiros,
Ficam sem saber de si.
És sereia enganadora,
Com teus cantos de encantar,
Coitado de quem se afoita,
Nas águas frias do mar,
Onde ficas noite e dia,
Lançando os teus feitiços,
Cantando sem alegria,
Para os corações mortiços.

Já nasceste assim sereia,
Nas dunas à beira-mar,
Nasceste em berço de areia
Com Neptuno a embalar.

Os que pensam estar na rota,
Mais segura deste mundo,
Ao passarem na tua ilhota,
O seu barco vai ao fundo.
Coitados dos navegantes,
Não sabem como escapar,
É poderosa a magia,
Que os leva a naufragar;
Mesmo que avisados,
Por outros que lá passaram,
Querem tentar ser primeiros,
Daqueles que te enganaram.

Já nasceste assim sereia,
Nas dunas à beira-mar,
Nasceste em berço de areia
Com Neptuno a embalar.

Só um deles foi Ulisses,
Mas guarda-lo bem, não o mostras,
Encantou-te o coração
Desfazes os dos outros e gostas.
Só um deles foi capaz
Em noite de distracção,
Ir montado no seu barco
E roubar-te o coração.
Só há um afortunado,
Quem dera que fosse eu,
Fiquei por ti encantado
Mas o teu amor venceu.

Já nasceste assim sereia,
Nas dunas à beira-mar,
Nasceste em berço de areia
Com Neptuno a embalar.

Christian de La Salette

terça-feira, 18 de março de 2008

Omnipresença


Tornam-se pesarosos os meus dias com a tua ausência física. Apenas física porque a tua presença é constante, em todas as horas, em todas as minhas acções, em todos os meus pensamentos. Quanto mais tento apagar-te mais forte é a tua presença em mim. Tento...

Falham-me as ideias cada vez que as tento desviar de ti, ocupam os meus braços as lembranças do teu corpo neles, cada sombra do vento na minha vida é um reflexo da tua imagem, em cada ondular dos meus sonhos tu estás presente! Tornaste-te omnipresente em tudo o que me pertencia, em toda a minha intimidade, mesmo na que partilho com outra, com outros. Cada gesto teu é projectado no gesto dos que vivem comigo, cada relato do seu quotidiano é uma pergunta sem resposta sobre como é o teu dia, como foi, como correu. Interrogo-me se saboreias esta minha dependência, se te dá prazer saber que estou viciado em ti, que jamais conseguirei esquecer-te.

Se eu não te amasse tanto assim!...

Se eu não dependesse tanto das minhas recordações dos breves momentos que partilhámos...

Se eu não estivesse tão obcecado por ti!...

Lembras-me um barco que se afasta no mar da minha vida deixando-me isolado na ilha dos dias costumeiros, perdido todo o encanto do paraíso inicial. Levas contigo toda a minha remota possibilidade de salvação tornando-me definitivamente náufrago, à mercê da tua vontade de regressar um dia. Só que não regressarás e não há mais ninguém que saiba a rota que vai dar a esta ilha. Abandonaste-me porque te rejeitei. Rejeitei-te porque não me quiseste. É um jogo do querer e não querer que se torna no jogo diário que jogamos os dois.

Pensava que seria difícil dizer a quem amava que estava apaixonado por ti. Não sabia era que isso era o mais fácil! Difícil é ter de viver com quem amo e rejeitar quem desejo sabendo que quem amo não admite que te deseje. Difícil é desejar-te em quem amo sabendo que nunca estarás no lugar que eu quero; que serás sempre um vazio imaginado no meu leito, que eu estarei vazio em toda a minha entrega a quem amo. Eu já não me entrego. Apenas me abandono. Não é a minha vontade que se entrega, é o meu dever. Não é o meu desejo que se entrega, é a minha obrigação. Não é o meu corpo que se entrega mas sim o corpo que tu rejeitaste... Esvazio-me completamente nessas entregas. A minha alma viaja externamente, os meus olhos fecham-se embora continuem abertos em pensamentos. Sou mais infiel agora do que antes de lhe contar da tua existência, pois agora estás presente até nos gestos dela, nas atenções dela, no carinho dela, nas carícias dela, no conhecimento dela...

Respiro-te em cada movimento dos meus pulmões. Inalo-te em cada lufada de ar que entra em mim.

E para quê?...

sábado, 15 de março de 2008

Chora por mim

Chora por mim que eu não posso,
Fechei o coração bem fundo,
Grita por mim que eu não ouço,
Retirei-te do meu mundo.
Afasta de mim as loucuras,
As mil vontades de morrer,
Diz-me palavras duras,
Ajuda-me a te esquecer.
Chora por mim que eu não sei,
Como vou sobreviver,
Condenado por essa lei,
Que manda sem ti viver.
Reza por mim com fervor,
Usa todas as orações
P’ra me arrancar este amor,
P’ra matar as ilusões.

Chora por mim!…

Ensina-me qual é arte,
A ciência mais exacta,
Que subtraia o amar-te
Sem esta dor que me mata.
Finge-te longe de mim,
Num lugar inalcançável,
Pois eu sei que só assim,
Ficarei invulnerável.
Faz com que a dor que me segue,
Deixe de ser meu tormento,
Pede a Deus p’ra que me cegue
Os olhos do pensamento.
Limpa-me toda a lembrança,
De tudo o que nela gravaste,
Provoca-me uma mudança
Dá-me tudo o que te afaste.

Reza por mim!…

Procura um canto escondido,
Distante do meu olhar,
Serei menino perdido
Cada vez que te encontrar.
Evita os meus caminhos,
Esconde-te no nevoeiro,
Pois para mim são daninhos,
A tua presença, o teu cheiro.
Ausenta a tua essência,
No meu corpo impregnada,
Destrói-me na consciência
A tua imagem marcada.
Esquece de mim o calor
Em cada abraço apertado,
O meu beijo, o meu ardor,
Em cada afago roubado.

Pede por mim!...

Afasta da minha memória,
Esse dia malfadado,
Que a ti te deu a vitória,
Fez de mim um derrotado,
Perdido nos teus enredos,
Oculto na tua história,
Me devolveu os meus medos,
Me roubou toda a glória.

Sei qual é o meu destino,
No que resta p’ra viver,
É tirar-te do meu tino,
Lembrar-me de te esquecer.

Christian de La Salette

quarta-feira, 12 de março de 2008

Horizontes

Levantam-se os horizontes já cansados,
As velas não se enfunam, não há ventos,
Navegam em naus de quatro rodas,
Em estradas de agonias e tormentos.
Acostam em lúgubres ancoradouros,
Cais de rotineira perdição,
Atracam-se a futuros não vindouros,
Largam as amarras da paixão.
Procuram novos rumos em velhas rotas,
Em ondas feitas do seu próprio sal,
Sulcam vagas bravas e revoltas,
Procuram com afinco outro portal,
Que os transporte além desta realidade,
Em caminhos do espaço sideral,
Em íntimos escondidos da verdade,
Em ilhas que se ocultam do real.
Cansam-se os horizontes em procuras,
Tentando vislumbrar quotidianos,
Linhas que demarquem oceanos,
Alívios para os males e novas curas.
Gemem suas mágoas, desenganos,
Embriagam-se nas dores que os atormentam,
Prostram-se cansados pelos anos,
Em catres, nos pesares, que eles inventam.
Já se esqueceram da cor do pôr-do-sol,
Dos raios de ouro ao entardecer,
Do próprio Sol deitando-se no seu leito,
Dos dias calmos e serenos a adormecer.
Repetem as suas cores todos os dias,
Vivem em aborrecimento permanente,
Perderam totalmente as ousadias,
Arrastam-se no passado já ausente.
Já não querem mais ser horizontes,
Ser fim do mar perdeu todo o encanto,
Deitam-se novamente ao fim do dia,
Para que a noite os cubra com o seu manto.

Christian de La Salette

terça-feira, 11 de março de 2008

Desencontros

Nem sabes C. como te entendo na tua dor. Essa dor que nasce por vermos outra pessoa nos olhos de quem se ama, esse baque que nos atinge e nos derruba e a certeza de que ao abrirmos os braços encontraremos um vazio entre eles. Foi assim comigo durante anos cada vez que te olhava, cada vez que não me via nos teus olhos, cada vez que te negavas a olhar para mim, deitando-me apenas olhares fugazes para que eu não te fugisse. Aos poucos a memória do meu coração foi-se fechando, a dor foi-se tornando suportável, a razão foi ocupando o espaço vazio que tu deixavas nos meus dias. Novos dias vieram...
Novos amores?
Não sei se o passado se foi esquecendo de me atormentar no presente ou se o destino pretende pregar-me uma partida ainda mais cruel. Como viver entre quem se ama e quem nos quer? Sobretudo quando amamos quem não nos quer? Como rejeitar uma amizade porque nos magoa ou aceitar uma outra porque se acomoda no nosso coração, porque substitui a ausência do amor de outro?
Sei o que é viver no limbo dos sentimentos, no purgatório das emoções mais contraditórias. Amar e ser amado! Parece simples, não parece? Mas é um verbo que necessita ser conjugado pelas mesmas pessoas para se tornar simplificado. Amar quem não nos ama imuniza-nos à dor dos que sofrem o mesmo por nós. Ser amado por quem não queremos, martiriza-nos a consciência pela rejeição que não temos coragem de assumir. Prendemo-los a nós para nos aliviarem o sofrimento que sentimos pela ausência do amor de outro, aquele que queremos verdadeiramente, no momento. Só que essa prisão às vezes também nos prende a nós e só damos conta disso quando já é demasiado tarde, quando tivermos deixado escapar a oportunidade de conjugar o verbo na sua simplicidade: amar e ser amado!
Eu vi o baque nos teus olhos. Vi a tua dor no desprezo com que me falaste: “Há tempo suficiente!...” Tempo suficiente para sentir o turbilhão das emoções invadirem a nossa vontade, para o desespero tomar conta de nós, para afinal descobrir o que era óbvio e não permitimos que se soltasse de nós por condicionamentos morais. Contra os princípios...
Dói!...
É uma dor alucinante que embota os sentidos, a razão, o discernimento; que nos torna mortos-vivos no vaguear dos dias, ausentes da nossa realidade. Uma dor que nos comanda irracionalmente e nos faz desejar terminá-la, a qualquer preço, de qualquer forma... É uma dor que vai germinando e tornando-se cada vez mais forte, que nos domina ao ponto do inconcebível. É uma dor que nos dá vontade de inexistir...
Quem amo eu, afinal?
Quem me ama, afinal?
Rejeitar quem nos ama, amar quem nos rejeita! O destino é um diabrete travesso que vai brincando com os corações dos incautos que se atravessam nos seus domínios, indiferente às feridas que se abrem, às lágrimas que se perdem...

Christian de La Salette

sábado, 8 de março de 2008

Amizade


Seremos sempre amigos...

Conforta-me essa ideia do eterno,
Essa certeza que se perde tempo além,
Essa amizade, sentimento puro e terno,
O carinho e ternura que ela tem.
Conforta-me a certeza que me dá,
Ter-te dessa forma em minha vida,
Saber que onde estás sempre estará,
Uma parte de mim que te é querida.
Alegra-me esse laço que nos une,
Enternece-me saber que tu esperas,
Poder com o meu amor tornar-te imune,
A todos os demónios e às loucas feras.
Mesmo não sendo mais que apenas homem,
Sem poderes para além dos naturais,
Orgulha-me a confiança que me entregas,
Envaidece-me servir-te como cais.
Sinto serenado o coração
Imaginando-me toda a vida a teu lado,
Permanecendo na tua recordação,
Sentir-me dessa forma sempre amado.
Confia-te pois a mim sem ter reservas,
Entrega-te sem estabelecer as condições,
As minhas vontades a ti te serão servas,
Entrego a ti as minhas ilusões.
Sei onde parar quando cansado,
Em ti há uma pousada retemperante,
Recobro as minhas forças a teu lado,
Refaço-me contigo num instante.
Nada é mais forte que um amigo,
Para empurrar a vida para a frente,
Se tu alguma vez não fores comigo,
Serei homem vazio, alma ausente.
Por isso aqui me tens ao teu dispor,
Serei como eunuco no teu harém,
Servo dedicado ao teu amor,
Unguento se outros te magoarem.
Estarei sempre aqui à tua espera,
Irei onde quiseres, qualquer lugar,
Tudo eu farei por ti e quem me dera,
Tudo te dar, amor, tudo te dar...

Christian de La Salette

quinta-feira, 6 de março de 2008

Nau tristonha

Ando à deriva num barco sem leme nem mastro. Embato nos escolhos deste mar poluído em que se transformou a corrente dos dias. Acordo já naufragado...
Tentei tirar de mim a carga que afunda o meu navio. É impossível!... É impossível!... É impossível!...
Rezei a todos os anjos, pai-nossos, avé-marias; chorei no banco da igreja onde me prometi um dia todo a ela totalmente. Pedi ajuda divina para não ficar demente.
Passeei-me, vagueando, por entre as vagas da vida... Não há porto nem abrigo, não há mar nem oceano, que aliviem este castigo, que me levem ao desengano. Não há nada que me brilhe a luz que me guie neste remar tão insano, contra a maré da loucura, contra os ventos do martírio, não há farol que me guie...
Navego sempre às escuras, tacteando a escuridão, navego às apalpadelas no muro da solidão, nessa parede sem portas, nesse lugar sem saída das trévoas da gente morta, das névoas e neblinas.
Naufrago todas as noites um naufrágio repetido desfeito em sal nos meus olhos. Não vejo doca nem cais, molhe para os meus ais, não vejo p'ra lá de mim... Dia a dia é sempre assim.
Rasgam-me os meus costados sentimentos icebergues, afundo-me num mar gelado sem encontrar os albergues das dores que em mim transporto; tantas dores que não suporto!...
Perdi o rumo da vida, a rota da alegria. Navego sem mastro nem leme. Hei-de morrer algum dia!...

Dorme meu amor, dorme



Dorme serena, amor, dorme
Velarei por ti de noite,
Imagina-me a teu lado;
Nem que o sono me açoite,
Ficarei sempre acordado.
Dorme, meu amor, dorme...
Já não faz vento lá fora,
Já fugiu a tempestade,
Fui eu quem os mandou embora,
Disse-lhes que já era tarde.
Não quero que que vos acordem
Nem a ti, nem teus meninos,
Mandarei calar os sinos,
Pararei toda a desordem,
Tudo ficará em ordem.
O teu descanso sagrado
Ninguém há-de perturbar,
Calarei todo o ruído,
Mandarei calar o mar,
Ninguém te pode acordar.
Velarei por ti atento,
Até ao romper do dia,
Nenhum sopro, nenhum vento,
Nem o ar da maresia,
Têm minha permissão
P'ra andarem em correria,
Brincando na confusão,
No auge da euforia;
Nem pinheiros na floresta
Sussurrando entre si,
Têm minha autorização
Para te acordar a ti.
Nem o frio, nem geada,
Nem o sol da madrugada,
Nem a lua a brilhar,
Te poderão despertar.
Dorme meu amor, dorme!

Christian de La Salette

quarta-feira, 5 de março de 2008

Amargura

Sei a cor da escuridão,
Sei-o pois nela vivo.
Sei o som da solidão,
Sei o que é andar perdido.
Quem não ouve as minhas preces,
Nem mesmo me mete nas suas,
Tem um coração de pedra,
Não chora nem um gemido.
É fera sem sentimentos,
Os outros são-lhe jumentos,
Bestas de carga falidas
Das suas dores mal paridas.
Quem não me limpa o suor,
Que dos olhos cai sem esforço,
É vil, cruel, é autora
Do lado negro das vidas.
Quem me fere com o desprezo
Que do seu antro desprende,
É víbora cheia de fel,
Madrasta de toda a serpente.
É Cassandra, é Pandora,
Dalila, Helena, Perséfone,
É maldição mitológica,
Vaga de dor imponente.
É bandido mascarado,
Roubando-me os sentimentos,
Hidra regenerada,
A Hera que lhe deu vida.
Quem não me quer não se importa,
Se vivo, se morto eu ando,
Quem me rejeita transporta
A arma do meu homicida.
Procura formas de morte
Das mais dolores, cruéis,
Tortura-me com mil chicotes,
Feitos com os seus anéis,
Bate-me sem piedade,
Não dá tréguas nem dá água,
Só procura variedade
Nas outras formas da mágoa.

Quem não me ama não chora
As lágrimas que tu me deitas,
Quem não me ama ignora
Do que essas lágrimas são feitas!


Christian de La Salette

terça-feira, 4 de março de 2008

Ficas Calada


Chamei por ti ainda hoje e tu acorreste ao meu chamado; não sei porquê mas senti-me amado ainda que os teus lábios me negassem. Logo te foste, após tão breve encontro do qual ficou a nostalgia pairando no espaço. Rápida se instalou aquela dor estranha que regressa em cada partida tua. Sempre mais forte, cada vez mais forte. O tempo passa corre e voa quando estás ao pé de mim, o tempo esmaga e me atraiçoa quando sais de ao pé de mim. Senti-me angustiado com a tua ausência. Mandei-te uma mensagem, um grito de socorro, pedi que acalmasses os meus receios... Ficaste calada, nada me disseste...

Regressam-me os sombrios pensamentos, acabam com a fugaz tranquilidade ganha nesses breves momentos de encontros fortuitos à mesa de um café, nesses ténues momentos de cumplicidade.

Onde estás? Responde, por favor!

Ficas calada!...

Deixas assim que o desespero se apodere novamente de mim, que a tristeza ocupe o espaço que ocupava a alegria de ter estado contigo, que a desilusão tome o lugar da esperança. Nada me dizes, nada me consolas, abandonas-me tão depressa como fazes nas tuas presenças físicas nos meus dias. Visitas de médico... quase tão impessoais como elas.

Ficas calada...

Que podes dizer que não me magoe?!...

Tanta coisa... Podes dizer que é possível amar alguém ainda que não estejas apaixonada por essa pessoa, que te sentes bem com alguém só por estar e poder conversar e que isso talvez seja amor, que sentes a mesma falta de estar comigo como eu sinto falta de estar contigo. Podes dizer que mesmo que o teu corpo se entregue a outra pessoa haverá sempre um lugar no teu coração para mim e que isso talvez seja amor. Que quando não te falo e desapareço na tua vida por instantes, sentes um vazio a apoderar-se de ti e que isso talvez seja amor. Que mesmo que não queiras o meu corpo, sentes falta dos meus abraços e que isso talvez seja amor. Que choras quando me vês sofrer e que se não é pena, talvez isso seja amor. Um amor que eras capaz de aguentar todos os dias, calmo e sereno, que se dá num beijo terno, num abraço quente, num aconchego apertado. Um amor que te faz desejar ter uma pessoa perto de ti por saber que com ela não é preciso ter máscaras, mentir ou adaptar a verdade. Um amor que por não ser carnal se torna mais forte que a paixão, um amor sem desejo que admite o desejo do outro sem se sentir abusado.


Podias dizer tanta coisa...

Porém, ficas calada...

F.

Servil

Amanheces em mim todos os dias,
És presença em todos os momentos,
É vão o esforço, fracos os intentos
De me fechar nas minhas valentias.
Desligo-te o telefone, iludido,
Pensando que assim te desvaneces,
Porém, ao pensar que desapareces
Sou eu quem fica desaparecido.
Finjo-me valente, impermeável
A todos os teus gritos e lamentos,
Corro-te servil aos chamamentos
Fazes de mim criança vulnerável!
Impregnaste-me de ti de tal maneira,
Encharcaste-me os sentidos de tal forma,
Que a minha alma já não se conforma,
Se não te puder ter a vida inteira.

Hei-de passar o resto dos meus dias,
Usando a espátula que o tempo me deu,
Raspando de mim aquelas fantasias,
De fazer-te Julieta e a mim Romeu.
Não posso fingir que te não quero,
Mesmo que mo peças com fervor,
É uma sina que eu já não tolero,
Enganar-me ao negar o teu amor.
E vou chorando a dor nestes meus versos,
Vou-me esvaindo todo nesta escrita,
Escrevendo-te sentidos controversos,
Largando aqui o que a mágoa me dita.

Sucumbo eternamento ao teu encanto,
És fada que me enfeitiça inteiramente,
E cobres-me com o teu falso manto,
Deixando-me sozinho e tu ausente.
Padeço as doenças que me lanças,
Com feitiços que afinal são uma praga,
Danço sem cessar as tuas danças,
Abres-me no ventre enorme chaga.
Peço-te que me cures de uma vez,
Só há uma poção que é infalível,
Procura-a com afinco e avidez,
Transforma-me em objecto apetecível.

Ama-me como se eu fosse o primeiro,
Que entrasse de rompante no teu ninho,
Faz de mim teu único companheiro,
Parceiro que partilha o teu caminho.

Christian de La Salette

segunda-feira, 3 de março de 2008

Martírio

Nem sabes quanto é custoso
Negar a tua amizade,
Não sabes como é penoso
Prender a minha vontade,
Rejeitar o teu sorriso,
Coisa que eu tanto queria,
Não sabes quanto preciso
De ter a tua alegria,
De te ver e ao teu encanto,
De te ter todo o meu dia,
Secando os olhos do pranto,
De tudo o que me angustia.

Negar-te é dor atroz
Que se alastra totalmente,
É um rugido feroz
Que atroa a minha mente,
É uma lança cravada,
É um sofrer demoníaco,
É uma seta espetada
Dentro do músculo cardíaco.
Negar-te é como morrer
A todo o instante e momento,
É conjugar e viver
O verbo do sofrimento.

Refreio-me todas as horas
P'ra não acalmar tua dor,
Mas será por mim que tu choras,
Ou choras por outro amor?
Pedes-me p'ra ser teu amigo,
Pedes p'ra esquecer a paixão,
Mas sabes que não consigo,
É mais forte que a razão,
E quão difícil se torna
Esconder-te à minha vida,
E que a vida se transtorna,
Fica toda revolvida,
Cada vez que tu me falas,
Cada vez que me convidas,
Cada vez que em mim embalas
Esta dor com sete vidas.

Custa tanto rejeitar-te,
É tão duro minha querida,
Fingir não mais amar-te,
Deixar-te morrer com vida!

Christian de La Salette

domingo, 2 de março de 2008

Engana-me

Vem esta noite a minha casa,
Vender-me as tuas ilusões,
Leva-me contigo enganada,
Não há esperança nem razões,
Para me deixares acorrentado,
Ao perfume que deixaste para trás,
Leva-me contigo encarcerado,
No teu olhar, nas tuas condições,
Sabes como é viver assim,
Chorar sem dor, rir só por sofrer,
Leva toda esta trapalhada
Em que se transformou o meu viver,
Deixa-me nalgum canto do olhar,
Quando o teu amor se distrair,
Olhando para quem não te quer dar,
O mundo inteiro que te quer sorrir.
Vem esta noite habitar,
Na neblina que me tapa o céu,
Traz-me a tua luz p’ra acreditar,
Que aquilo que há em ti é tudo meu.
Deixa-me habitar teu coração,
Entrar nos pensamentos que tu tens,
Abre-me as janelas da paixão,
Fingir que quando vais, afinal vens.
Mente-me de forma descarada,
Atira-me rosas doces de bordel,
Faz com que esta mascarada
Seja uma farsa, um livro de cordel,
Engana-me com falas de menina,
Que vai ao baile para ver dançar,
A música que baila sozinha,
No tua forma dança de andar.
Rodopia à minha volta incessante,
Faz-me entontecer só de te olhar,
Que o tempo é menino ignorante,
Dos anos que perdeste sem amar.
Deixa que uma gota de orvalho,
Pouse nas faces do teu pensamento,
Encontra então em mim um novo atalho,
Que te transporte na brisa do vento,
Nesse caminho a sós que partilhamos,
Quando um de nós o outro acompanha,
Separados quando juntos assim vamos,
Amando-nos sem ter a mesma sanha.
Vem esta noite a minha casa,
Deita-te comigo no meu leito,
Quero acordar de madrugada,
Ouvir o ritmo suave do teu peito.

Christian de La Salette

Negrume

As lágrimas falam de sonhos maus,
Do papão que vive no meu peito,
Do meu horizonte sem as tuas naus,
Das dores que dormem no meu leito.
Grita-me a voz enrouquecida,
Chamando insistente a razão,
Manda que te faça enraivecida,
Para acabares com a minha ilusão.
Tenho de ser assim amargo e duro,
Despertar em ti negras vontades,
Erguer entre nós dois tamanho muro,
Que me devolva as minhas liberdades!
Choram as palavras que te escrevo,
Sofrem persistente desespero,
Obrigam-me a escrever-te o que devo,
Impedem-me de escrever-te o que quero.
Mandam-me fazer com que rejeites,
Tudo o que eu tenho p’ra te dar,
Jamais permitir que tu aceites,
Esta forma tão azeda de amar.
São tão cruéis e vis estas sentenças,
Que me forçam a negar tua amizade,
Opõem-se firmemente a que pertenças
À minha dolorosa e triste realidade.
Mas o queria a sério era ir,
Deixar-me levar pela insensatez,
Vaguear eternamente, daqui fugir,
Perder todos os sonhos duma vez.
O que queria mesmo era sair,
De dentro deste corpo assombrado,
Deixar este lugar, logo partir,
P’ra onde nunca fosse encontrado.
O que desejo mesmo de verdade,
Nem mesmo a ti o posso confessar,
É tão forte e secreta essa vontade,
Que só a mim me atrevo a contar.
E peno de mim mesmo arrependido,
Culpo-me das dores que te provoco,
Mas só assim é que pode ser vencido,
Este sentir em mim que me faz louco.
Culpo-me de não ser quem tu desejas,
Culpo-te de não me quereres soltar,
Acuso-me de fingir que tu me beijas,
Cada vez que me perco a sonhar.
Sinto-me de tal forma enfeitiçado,
Que chego a desejar a quem tu amas,
A mais cruel das dores, um mau-olhado,
Que te impeça de partilhar as suas camas.

Christian de La Salette